Logo eu, que queria poder saltar entre um trapézio e outro, sentindo o frio na barriga que essa rápida liberdade dá. Que queria sentir a sensação inexplicável de ter o corpo embalado pela música em movimentos fascinantes. Que queria ainda colocar um nariz vermelho e com ele espalhar riso e lágrimas de felicidade. Que queria também poder abrir a boca e soltar a voz como um passarinho que canta no mais perfeito tom. Que queria poder segurar uma caneta e no papel registrar versos; e neles encaixar perfeitamente uma melodia contagiante. Eu queria é pegar um instrumento e dele tirar um som que embala delicadamente o corpo de uma bela e magricela bailarina. Queria subir num palco e nele fazer de mim um personagem que retrata a felicidade ou a dor de ser humano. Queria encaixar a luz com o foco e então num movimento suave de um dedo, retratar para sempre um instante que passou sem se perceber. Eu queria ter um papel em branco e nele colocar traços, riscos e rabiscos, formando belas e perfeitas formas que compõem um desenho único. Queria o frio na barriga de cada apresentação, de cada novo e repetido movimento, de cada passo, pulo, movimento, equilíbrio, sorriso, lágrima, toque, acorde. Queria ter o fascínio pelo insistente e dolorido ensaio de horas a fio. Queria ter a facilidade e delicadeza de fazer os traços de pincel na tela. Queria ter a adrenalina de cuspir fogo. Queria ter a sensação de controle do regente com uma orquestra em mãos. Queria ter a mente maluca que cria formas, formatos, movimentos, saltos, frases soltas, histórias irreais. Queria ser quem não sou por vários instantes. Queria compor personagens, pinturas na face, figurinos, notas musicais. Queria ter a mente inquieta que busca a imagem, que registra, que pinta usando apenas um dedo e um botão. Queria os calos nos pés de um bailarino, as quedas de um equilibrista, as frustrações de um músico que erra a nota, as dores no corpo de um dançarino, as confusões de um ator. Queria o salto perfeito do bailarino, a sensação de total controle do equilibrista, a felicidade da perfeição do músico, a delícia do corpo embalado na música do dançarino, a satisfação de ser quem não se é de um ator. Queria ter essa mente maluca de um artista. Essa mente que sofre e ri pela arte. Essa mente que dá o melhor de si, que não importa o dinheiro e sim a satisfação de fazer o que faz. Essa mente que enlouquece com a arte de fazer arte. Essa mente que não entende o normal. Essa mente que assume a arte como o mais sublime e satisfatório trabalho que pode fazer pra Quem assim lhe permitiu ser. Logo eu, que queria tudo isso, tenho simplesmente um papel e uma caneta em mãos. Não para fazer traços mal feitos, mas para me realizar nessa também arte de encaixar palavras, formar textos, traduzir sensações. Logo eu, que queria tudo isso, me satisfaço com a delícia de se realizar ao colocar ponto final na brincadeira de escrever. Isso porque acredito que a delícia do ponto final é a mesma do último movimento, última fala, última foto, último traço, último toque, última nota daquele instante. É a mesma delícia de concluir qualquer outra arte e dizer: foi o meu melhor! E mesmo que eu não brincasse com a arte de escrever, ainda assim me sentiria uma artista. Porque o meu respirar, para Ti, já é uma arte!